Natural Habitations
of small flying beings
 
Corvo-marinho de-faces-brancas
A característica silhueta de uma ave preta, de bico e cauda compridos, a voar à superfície da água ou com as asas abertas a secar ao sol, rapidamente nos diz que estamos na presença de um corvo-marinho.
TAXONOMIA
Ordem: Suliformes
Família: Phalacrocoracidae
Gênero: Phalacrocorax
Espécie: Phalacrocorax carbo (Linnaeus, 1758)
Subespécies: 5
Em Portugal ocorrem duas subespécies: P. c. carbo, originária das costas atlânticas da Europa ocidental e setentrional e P. c. sinensis, originária do centro e leste da Europa e que se tem vindo a expandir como nidificante.
DENTIFICAÇÃO
Esta ave aquática de médio-grande porte chama a atenção por ser quase totalmente preta, tanto pousada como em voo. É claramente maior que um pato, tem um pescoço longo e asas igualmente longas. O bico amarelo contrasta como preto da plumagem e, no final do Inverno, alguns indivíduos adquirem uma mancha branca em cada flanco e outra na cabeça. É um nadador exímio, que mergulha para apanhar o peixe de que se alimenta. Pode confundir-se apenas com o corvo-marinho-de-crista, espécie residente, que contudo é mais esguio, não tem branco na plumagem e tem o bico mais fino.
O corvo-marinho-de-faces-brancas tem aproximadamente 90 cm de comprimento e cerca de 150 cm de envergadura. A sua plumagem é bicolor: preta com brilho esverdeado no dorso, asas e parte posterior do pescoço, e branca na zona da face, garganta, peito e ventre. Na época de reprodução, os adultos adquirem uma mancha branca na parte exterior das coxas. Como em todos os cormorões, o pescoço é longo e o bico é ligeiramente encurvado na ponta. Os olhos são verdes e a pele em seu redor é amarela. O papo verde é uma das características distintivas da espécie.
É uma ave de hábitos solitários, mas pode ser encontrada em grandes bandos em zonas ricas em alimento. O corvo-marinho-de-faces-brancas alimenta-se principalmente de peixes que pesca em mergulho, consumindo também anfíbios, crustáceos e moluscos. Após cada período de pesca, como todos os corvos-marinhos, descansa com as asas abertas ao sol de modo a secar as penas, que não são impermeáveis.
ABUNDÂNCIA E CALENDÁRIO
O corvo-marinho-de-faces-brancas é sobretudo invernante em Portugal. Está ligado às zonas húmidas, sendo localmente abundante, podendo ver-se concentrações de dezenas ou mesmo centenas de indivíduos. No interior do país é menos frequente, mas também ocorre junto a barragens, açudes e rios de grande caudal. Está presente no nosso país sobretudo de Setembro a Abril. Contudo, alguns imaturos e indivíduos não reprodutores podem ser observados durante a Primavera e o Verão, embora nesta época a espécie seja relativamente rara em Portugal.
ONDE OBSERVAR
Os melhores locais para observar este corvo-marinho são as grandes zonas húmidas costeiras, ocorrendo também no litoral e em albufeiras do interior.
Entre Douro e Minho – ocorre regularmente no estuário do Minho, sobretudo na Ínsua, assim como no estuário do Cávado e no estuário do Lima. Também no estuário do Douro podem ser encontradas bastantes aves durante o Inverno.
Trás-os-Montes – esta espécie já foi registada na albufeira do Azibo.
Litoral Centro – pode ser facilmente observado na ria de Aveiro, no estuário do Mondego, na lagoa de Óbidos, no paul de Tornada e no cabo Carvoeiro. Ocasionalmente observa-se na baía de São Martinho do Porto e na lagoa da Ervedeira.
Beira interior – embora menos abundante que em algumas zonas do litoral, é observado regularmente nesta região, nomeadamente nas portas de Ródão, na albufeira de Santa Maria de Aguiar, na albufeira de Vilar, na albufeira da Teja, na albufeira da Marateca e no Tejo Internacional. Por vezes observa-se na albufeira da Toulica.
Lisboa e Vale do Tejo – o estuário do Tejo é um dos melhores locais no país para a observação desta ave, pois a espécie é comum na região durante o Outono e o Inverno. Pode ser vista com facilidade no Parque do Tejo e na frente ribeirinha de Lisboa. Ocorre igualmente nas imediações do estuário, como por exemplo no paul da Barroca. Também se observa em certas localidades do interior, como por exemplo em Tomar.
Alentejo – espécie comum no estuário do Sado, na lagoa de Santo André e na albufeira do Alqueva, ocorrendo também na lagoa dos Patos e na albufeira do Roxo. No norte alentejano pode ainda ser visto em Elvas, na barragem da Póvoa e na zona de Nisa.
Algarve – espécie fácil de detectar, sobretudo em zonas húmidas costeiras como a ria Formosa, a reserva de Castro Marim, o estuário do Arade e a ria de Alvor. Também se observa em portos de abrigo, como por exemplo em Lagos ou Sagres, e em pequenas lagoas, como a foz do Almargem e a lagoa das Dunas Douradas. Alguns indivíduos pousam regularmente em ilhéus rochosos, nomeadamente na Ponta da Piedade e no Leixão da Gaivota e também nas praias da costa ocidental, junto ao planalto do Rogil.
Abundância e evolução populacional
Nos últimos 30 anos a população invernante tem aumentado de forma continuada em Portugal, possivelmente devido ao aumento do habitat disponível e sobretudo ao crescimento das populações do norte e centro europeus. A espécie é abundante como invernante no litoral do Continente, nomeadamente nos estuários do Tejo e do Sado e na Ria Formosa, sendo também relativamente comum em algumas zonas do interior. Em 1981 a população invernante foi estimada em 1000 indivíduos, no início da década de 1990 em 8000 a 10 000 indivíduos e em pouco mais de 15 000 indivíduos em janeiro de 2013. As estimativas mais recentes devem pecar por defeito, pois atualmente há muitos corvos-marinhos a invernar em ribeiras do interior que não são alvo de censos sistemáticos. Na costa continental não estuarina foram contados cerca de 800 indivíduos no inverno de 2009-10.
Ecologia e habitat
Esta espécie consome principalmente peixes que captura através de mergulhos a pequena ou média profundidade. Os vários estudos sobre a espécie em Portugal revelaram uma dieta generalista que, em meios estuarinos e lagunares costeiros, pode ser composta por peixes como diversas tainhas, o charroco, a enguia, o peixe-rei, e diversas espécies de alcarrazes e de linguados. Frequenta uma grande diversidade de habitats, com destaque para os estuários e as lagoas costeiras, ocorrendo ainda em albufeiras, em pauis, na costa rochosa e em cursos de água. Não frequenta mar aberto, podendo aí ocorrer apenas excecionalmente. Pode formar bandos com centenas de indivíduos quando se desloca para os dormitórios.
Ameaças e conservação
Globalmente, esta espécie regista uma tendência favorável de crescimento. O corvo-marinho está na origem de conflitos com o Homem um pouco por toda a Europa, incluindo Portugal. Esta espécie é acusada por piscicultores e por pescadores de causar um impacto negativo sobre as populações de peixes. Embora em certos casos estas acusações possam ser justificadas, no nosso país, a predação sobre espécies de peixes com valor comercial parece ser ainda pouco importante.